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Além de Tarsila: 7 artistas visuais brasileiras para conhecer e se inspirar

Quando pensamos em artistas visuais brasileiras, alguns nomes surgem quase automaticamente em nossas mentes: Tarsila do Amaral, Anita Malfatti, Lygia Clark, Lygia Pape e Tomie Ohtake são alguns dos exemplos dos quais a maior parte de nós tem como referência feminina na arte. 

Essas artistas merecem, sem sombra de dúvidas, todo o reconhecimento. No entanto, a proposta desse artigo é trazer outras mulheres que nem sempre aparecem nas principais listas de artistas visuais e plásticas brasileiras, mas que construíram, ou continuam construindo, obras marcantes, com linguagens próprias e trajetórias que também ajudam a contar a história da arte produzida no país.

A seleção a seguir inclui diferentes períodos da história da arte, regiões do Brasil e formas de criação, com 7 artistas visuais brasileiras que vale a pena conhecer, acompanhar e, principalmente, colocar no repertório.

Tereza Costa Rêgo

Para começar a lista, trago Tereza Costa Rêgo, cujas obras e trajetória foram detalhadas em outro artigo aqui no blog: Tereza Costa Rêgo: a pintora pernambucana que eu descobri numa viagem ao Recife.

Nascida em 1929, no Recife (PE), Tereza foi uma artista plástica plural, com um estilo que transitava entre o modernismo e o figurativismo, uma das marcas da arte moderna pernambucana. Seu trabalho é, até hoje, de grande importância não apenas para o estado, mas para a produção artística brasileira como um todo.

Tereza construiu uma trajetória marcada pela pintura figurativa, pelo uso intenso das cores e por temas relacionados ao feminino, à história e à cultura nordestina, além de utilizar sua própria história para expor seu olhar sobre o mundo.

Suas obras trazem questões relacionadas ao universo feminino, além de integrar temas políticos e históricos, em uma produção carregada de emoção, resistência e representatividade.

Em vida, passou por acontecimentos políticos importantes do Brasil e viveu na clandestinidade ao lado de seu companheiro, Diógenes Arruda, que lutou contra a ditadura. Nesse período, utilizou o pseudônimo Joana.

Nas suas pinturas, aparecem mulheres, corpos, gatos, paisagens e acontecimentos históricos. O vermelho é uma presença bastante marcante em seu trabalho e ganhou, para a própria artista, significados relacionados ao amor, ao fogo, ao sangue e à revolução.

Maria Auxiliadora da Silva

Outra artista que vale, e muito, ser relembrada é Maria Auxiliadora da Silva.

Nascida em Campo Belo, Minas Gerais, em 1935, ela se mudou ainda criança para São Paulo e precisou interromper os estudos para trabalhar como doméstica e ajudar no sustento de uma família de dezoito irmãos.

Sua mãe era artesã e foi por meio dela que Maria Auxiliadora teve o primeiro contato com a arte. Aos 32 anos, começou a pintar figuras que, com o tempo, ganharam uma característica muito particular: volumes feitos com massa e outros materiais aplicados sobre tela, como até mesmo fios do próprio cabelo.

Uma de suas obras de destaque é Três mulheres, de 1972, Nessa pintura, em que fez uma mistura de PVA, massa de poliéster e tecido sobre tela, os corpos e as roupas receberam um tratamento quase tátil, como se sua forma de pintar fosse semelhante ao ato de costurar, dialogando com sua experiência profissional anterior como costureira. 

Maria Auxiliadora retratava cenas do cotidiano, festas populares, manifestações religiosas, paisagens rurais, relações familiares e diferentes aspectos da cultura afro-brasileira, com candomblé, umbanda, jongo, capoeira e samba entre os temas presentes em sua produção.

Sua carreira, infelizmente, foi curta: aos 39 anos, ela morreu em decorrência de um câncer. Ainda assim, chegou a expor em países como Estados Unidos, França, Alemanha e Suíça, além de ter tido, posteriormente, duas exposições individuais no MASP, em 1981 e 2018. Atualmente, o museu possui quatro obras da artista em seu acervo.

Maria Auxiliadora merece ser relembrada não apenas pela história que ela representa, mas pela liberdade com que construiu uma linguagem própria, sem abrir mão das referências que faziam parte de sua vida e de seu cotidiano.

Maria Lídia Magliani

Se você gosta de conhecer artistas que trabalham com diferentes técnicas e linguagens, Maria Lídia Magliani é um nome que vale entrar no seu repertório.

Nascida em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 1946, Magliani foi a primeira mulher negra a se formar na Escola de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e é, hoje, um dos maiores nomes das artes visuais do seu estado, eterninzando-se por suas obras impactantes e questionadoras.

Além de pintora, como se definia, Magliani desenhava, trabalhava com gravura e atuava no teatro como figurinista e cenógrafa. Na imprensa, colaborou com diferentes jornais e revistas, desenvolvendo ilustrações e diagramando publicações. Também ilustrou livros, entre eles O inventário do irremediável, de Caio Fernando Abreu.

Na pintura, questões relacionadas ao feminino aparecem de maneira bastante presente, mas seu trabalho não trata o corpo feminino como uma imagem simplesmente decorativa ou idealizada: suas figuras carregam tensão, desconforto e questionamentos, com mulheres deformadas, corpos atados e personagens que parecem sufocar dentro da própria tela.

O fio condutor de sua produção passava pela condição humana, por relações complexas, situações de opressão, solidão e vulnerabilidade. É uma obra densa e, muitas vezes, trágica, mas também irreverente e provocadora, que não parece interessada em oferecer respostas fáceis para aquilo que representa.

Fédora do Rego Monteiro

Voltando bastante no tempo, a próxima artista visual brasileira que você precisa conhecer é Fédora do Rego Monteiro, também recifense, nascida em 1889.

Criada em uma família que respirava arte, com irmãos que também seguiram carreira artística, Fédora teve uma trajetória importante para a história das artes em Pernambuco, especialmente por sua atuação como artista e professora e por ter participado da fundação da Escola de Belas Artes de Pernambuco, em 1932.

Ela estudou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, e posteriormente seguiu para Paris, onde continuou sua formação artística na Académie Julian, além de participar de salões de arte na França.

Sua formação e atuação também fizeram parte de um momento em que as mulheres ainda encontravam muitas restrições para acessar espaços de formação e profissionalização artística.

Sua produção inclui principalmente retratos e paisagens, mas sua trajetória chama atenção também pelo caminho que precisou percorrer para construir uma carreira artística no início do século XX, em um ambiente ainda majoritariamente masculino.

Hoje, pesquisas acadêmicas dedicadas a Fédora mostram como ainda há muito sobre a artista a ser descoberto. Um projeto de pesquisa da Universidade Federal da Paraíba, por exemplo, estudou sua história de vida e sua obra levando em conta “questões de gênero na história da arte e o apagamento da mulher artista na historiografia da arte brasileira”.

Outras pesquisas também tratam diretamente dessa questão. Um estudo da Universidade Federal de Pernambuco sobre a presença das mulheres no modernismo pernambucano parte da constatação de que a exclusão das mulheres da história oficial da arte contribuiu para que muitas delas ficassem de fora das narrativas mais conhecidas sobre a história da arte, incluindo seu nome como um dos exemplos.

Justamente por isso, pensando nas mulheres que pavimentaram caminhos para as artistas que viriam depois, mas que nem sempre são lembradas quando falamos sobre a história da arte brasileira, quis trazer Fédora para esta lista.

Yaka Huni Kuin

A próxima indicação é uma artista que nasceu mais de cem anos depois de Fédora, em 1996: Yaka Huni Kuin, da Aldeia Chico Curumim, que fica na Terra Indígena Kaxinawa do Rio Jordão, no Acre.

Taka hoje vive e trabalha no município de Jordão e atua como artista visual, trabalhando principalmente com pintura acrílica sobre tela.

Sua produção está muito relacionada aos conhecimentos e à cosmovisão do povo Huni Kuin, com obras que trabalham referências aos cantos tradicionais, às mirações com o Nixi Pae e aos conhecimentos relacionados à floresta. Yaka também é cofundadora do Centro de Cultura Kayatibu, iniciativa voltada à valorização e transmissão da cultura Huni Kuin.

Suas obras já participaram de exposições como Moquém_Surarî: arte indígena contemporânea, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, Les Vivants, na Fondation Cartier, na França, e da 35ª Bienal de São Paulo.

O que chama atenção no trabalho de Yaka é que suas telas carregam conhecimentos, símbolos e tradições de seu povo, em que a floresta não aparece simplesmente como paisagem, mas faz parte do próprio universo de onde a artista cria.

Nesse sentido, a arte também se torna uma forma de transmitir conhecimentos e manter vivas histórias, cosmologias e tradições que atravessam gerações.

Conhecer artistas indígenas contemporâneos como Yaka é, além de tudo, uma maneira de ampliar o olhar sobre a própria produção artística brasileira, entendendo que a arte indígena não pertence apenas ao passado ou aos livros de história: ela continua sendo produzida, reinventada e ocupando espaços importantes no circuito contemporâneo.

Òkun

Ainda falando sobre artistas contemporâneas, Òkun é outra artista que merece ser citada e que traz, em suas obras, relações entre pintura e espiritualidade.

Nascida em Goiânia, em 2000, a artista trabalha com a pintura em diálogo com as visualidades das práticas de terreiro de Umbanda e Kimbanda de Lei, além de questões relacionadas à memória e à ancestralidade.

Ela utiliza o termo “Pintura de Encruzilhadas” para definir sua própria linguagem, e suas obras podem incorporar elementos como cabaças, cordas e outros materiais, aproximando a pintura de uma dimensão ritualística. Dessa forma, em vez de tratar esses elementos apenas como decoração, Òkun os incorpora à própria construção da obra.

A artista já participou de exposições como Dos Brasis: Arte e Pensamento Negro, no Sesc Belenzinho, Crônicas Cariocas, no Museu de Arte do Rio, e Sertão Negro: Território Vivo, em Nova York. Também integrou uma instalação coletiva do Sertão Negro na 36ª Bienal de São Paulo.

Em 2026, Òkun participou do Prêmio PIPA e ficou em segundo lugar na votação popular do PIPA Online, que recebeu mais de 21 mil votos no primeiro turno e mais de 11 mil no segundo.

Para quem gosta de descobrir artistas que experimentam novas formas de pensar a pintura, Òkun é uma referência atual que merece ser acompanhada.

Maria Martins

Para fechar a lista, escolhi outra artista histórica: Maria Martins.

Nascida em Campanha, Minas Gerais, em 1894, Maria Martins construiu uma carreira com forte circulação internacional e ficou conhecida especialmente por suas esculturas em bronze, além de desenhos e gravuras.

Sua produção é bastante associada ao surrealismo, mas existem elementos muito particulares em suas obras, como figuras humanas que aparecem misturadas a formas orgânicas, animais e elementos da natureza, além de referências às culturas indígenas amazônicas, à cultura afro-brasileira e à antiguidade clássica, com diferentes imaginários sobre o Brasil e os trópicos integrando o seu trabalho.

Durante boa parte da sua vida, Maria Martins viveu fora do Brasil e, nos Estados Unidos e na França, aproximou-se de nomes fundamentais do circuito artístico internacional, como André Breton, Marcel Duchamp e Piet Mondrian.

No Brasil, ajudou a organizar a primeira Bienal Internacional de São Paulo, em 1951. Além disso, foi premiada na terceira terceira edição da Bienal, em 1955.

Sua escultura O Impossível, de 1945, é uma das obras mais conhecidas de sua produção. Nela, duas formas humanas se aproximam sem realmente conseguir se tocar, criando uma imagem que parece falar sobre desejo, distância e impossibilidade.

Em 2021, o MASP realizou Maria Martins: desejo imaginante, uma das maiores exposições já dedicadas à artista, reunindo sua produção e contextualizando sua importância para o modernismo brasileiro e o surrealismo internacional.

Novas referências para ampliar o repertório

Embora alguns desses nomes já sejam bastante conhecidos, especialmente em suas regiões de origem e nos círculos ligados às artes visuais, outros ainda aparecem com menos frequência quando buscamos referências sobre artistas brasileiras.

A ideia desta lista foi justamente trazer um pouco dessa diversidade, para que você possa conhecer novas artistas para acompanhar, pesquisar, apreciar suas obras e também encontrar nelas novas referências para o seu próprio repertório criativo.

Leia também: Como desenvolver repertório cultural sem precisar de muito tempo ou dinheiro

São mulheres de diferentes épocas, regiões e trajetórias, com trabalhos que passam pela pintura, pelo desenho, pela escultura e por diferentes formas de entender e construir a arte.

E você, já conhecia alguma delas?

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