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Como desenvolver repertório cultural sem precisar de muito tempo ou dinheiro

Para mim, falar sobre como desenvolver repertório cultural, tema deste artigo, não envolve necessariamente consumir cultura no sentido elitista da palavra. Na verdade, enxergo esse repertório não como um acúmulo de informações, mas como uma prática diária de olhar e sentir o mundo com curiosidade, sensibilidade e atenção.

Você não precisa viajar para o exterior – embora, sim, isso traga grandes aprendizados -, visitar grandes museus, comprar muitos livros, fazer vários cursos, assistir a peças de teatro frequentemente ou conhecer um número impressionante de artistas e movimentos culturais para desenvolver esse repertório. Afinal, cumprir tudo isso parece um “checklist” interminável que exige um orçamento e um tempo que nós, meros mortais, simplesmente não temos.

Hoje, percebo que boa parte do repertório se constrói muito mais a partir daquelas coisas banais do dia a dia: observar uma conversa no ônibus, entrar em uma livraria apenas para folhear livros, assistir a um documentário numa terça-feira qualquer ou caminhar por aí prestando atenção em detalhes que normalmente passariam despercebidos.

A cultura está no dia a dia, no cotidiano. Ela não é apenas aquela coisa erudita, presente numa ópera italiana ou numa roda de leitura de Dostoiévski. Na verdade, o repertório cultural não é uma coleção de referências para impressionar outras pessoas, mas uma forma de perceber o mundo com mais profundidade.

Se você também sente que gostaria de ampliar suas referências, mas acha que falta tempo, dinheiro ou até mesmo “bagagem”, talvez este artigo ajude a desconstruir algumas dessas ideias.

Repertório cultural não é quantidade de informação

Existe uma tendência de associarmos repertório cultural ao acúmulo de conhecimento: saber nomes de pintores, decorar datas históricas, conhecer centenas de livros clássicos… Tudo isso pode fazer parte do processo, claro, mas está longe de ser o mais importante.

Acredito que repertório tem muito mais relação com a capacidade de estabelecer conexões: é quando um filme faz você lembrar de um romance que leu anos atrás, quando uma fotografia remete a uma pintura, quando uma conversa casual desperta uma lembrança da infância ou ajuda a compreender uma reportagem que acabou de ler.

Essas relações dificilmente surgem da noite para o dia, eu sei. Elas vão sendo construídas pouco a pouco, quase como quem monta um grande quebra-cabeça, acrescentando pequenas peças sempre que vive uma experiência nova ou revisita uma antiga sob outra perspectiva.

Talvez seja justamente isso que a palavra repertório carregue em seu próprio significado: a ideia de algo vivo, em constante construção, e não de uma estante organizada onde tudo está perfeitamente catalogado.

Leia mais, mas por curiosidade e não por obrigação

Se existe um hábito que transformou minha maneira de pensar e escrever, certamente foi a leitura. E não, isso não significa que você precise começar pelos grandes clássicos da filosofia ou da literatura russa. Se você quiser e gostar, claro, é sempre ótimo.

Mas ler, seja um livro de fantasia, ficção, romance ou qualquer outro gênero, também amplia o nosso repertório – afinal, vale muito mais ler constantemente do que tentar cumprir listas intermináveis de livros que talvez nem despertem tanto assim o seu interesse.

Desde que a leitura provoque reflexões, desperte emoções ou apresente uma realidade diferente da sua, ela já está ampliando o seu olhar. Um romance ambientado em outro período histórico, por exemplo, nos aproxima de costumes, conflitos e formas de viver muito diferentes das atuais. Já um livro de fantasia, por mais distante que pareça da realidade, frequentemente fala sobre poder, preconceito, ética, pertencimento ou desigualdade por meio de metáforas. No fim das contas, toda boa história diz alguma coisa sobre nós mesmos e o mundo ao nosso redor.

Inclusive, escrevi aqui no blog um artigo mostrando como criar o hábito de ler mesmo com a rotina corrida, justamente porque acredito que a leitura precisa caber na vida real, e não em uma versão idealizada da nossa rotina.

Outro ponto importante é diversificar as leituras. Se você costuma ler apenas ficção, experimente uma biografia. Se gosta de romances, talvez seja interessante explorar ensaios, livros de fotografia, arquitetura, filosofia, ciência ou até quadrinhos. Quanto mais diferentes forem as vozes que chegam até você, mais camadas o seu próprio olhar ganha.

Desenvolva o hábito de observar

Talvez essa seja a prática que mais tenha mudado minha forma de enxergar o mundo. Quando comecei a fotografar, imaginava que aprenderia apenas sobre câmeras, lentes e composição, mas não demorou muito para perceber que a fotografia ensina algo muito mais profundo: ela nos obriga a prestar atenção no mundo que nos cerca.

Depois que passamos a treinar o olhar, fica difícil caminhar pela cidade sem notar o desenho das sombras no fim da tarde, a geometria das fachadas, as texturas de uma parede antiga ou até mesmo a forma como as pessoas se expressam por meio da moda, que também está profundamente ligada a aspectos culturais e sociais.

É curioso porque nada disso surgiu de repente: a cidade sempre esteve ali, mas era eu que não olhava com calma suficiente.

No artigo em que conto como iniciar na fotografia, digo que fotografar é encontrar poesia naquilo que normalmente passaria despercebido.

Continuo acreditando nisso e, hoje, ainda acrescento que talvez essa seja uma das maneiras mais acessíveis de desenvolver repertório cultural: aprender a observar antes mesmo de consumir novas referências. Afinal, cultura também mora nas pequenas cenas do cotidiano.

Consuma cultura em formatos diferentes

Quando pensamos em repertório cultural, os livros costumam ocupar o centro da conversa, mas eles estão longe de ser a única fonte de boas referências.

Documentários, filmes, exposições gratuitas, podcasts, entrevistas, concertos disponíveis gratuitamente na internet, museus virtuais, canais educativos, revistas culturais… tudo isso pode ampliar nossa percepção sobre o mundo.

Confesso que gosto bastante de documentários porque eles costumam reunir diferentes linguagens ao mesmo tempo: imagem, fotografia, música, narrativa, contexto histórico e depoimentos.

Muitas vezes termino um documentário anotando o nome de um artista, de um livro ou de um acontecimento histórico para pesquisar depois. E aí uma referência leva a outra, que leva a outra e depois a outra… formando uma espécie de corrente infinita de descobertas.

E esse é um detalhe importante: não precisamos consumir tudo – aliás, ninguém consegue. Inclusive, é válido lembrar que desenvolver repertório também envolve aceitar que sempre haverá algo novo para conhecer e que cultivar a curiosidade genuína de querer aprender mais, sabendo que nunca daremos conta de conhecer tudo, é uma das partes mais bonitas da coisa toda.

Viajar ajuda, mas aprender a olhar ajuda muito mais

Viajar é uma das experiências mais enriquecedoras que existem e isso já é algo dito à exaustão. Sim, é de conhecimento geral o quanto conhecer novos lugares amplia nossos conhecimentos, mas não custa reforçar.

Só que, para mim, as lembranças de viagem que mais permanecem não são as visitas aos grandes pontos turísticos. Na verdade, o que mais lembro são as pequenas observações: a arquitetura, os cafés de bairro, os mercados locais, as placas escritas em outra língua, os hábitos cotidianos, as inúmeras pessoas que conheci e até mesmo o diferente ritmo de cada cidade.

No artigo em que reuni algumas das cidades com arquitetura que mais parecem obra de arte, escrevi que viajar é, antes de tudo, aprender a observar. E sim, continuo pensando exatamente assim. Mas eu sei, não é simples viajar sempre, exige tempo e orçamento que muitas vezes não temos. Por isso, boa notícia: esse mesmo exercício pode ser feito em nossas próprias cidades.

Experimente ser turista onde você mora. Pense comigo: se você fosse apresentar sua cidade ou região para alguém, onde levaria essa pessoa? Quais os lugares legais que existem nos arredores para desbravar?

Além disso, você pode caminhar por um bairro onde você nunca esteve, entrar em um centro cultural gratuito, observar edifícios históricos que normalmente passam despercebidos durante a correria do dia, descobrir a história da praça por onde você sempre passa sem reparar. Enfim, aquele tipo de coisa que não nos atentamos na maior parte das vezes.

Às vezes, a novidade não está distante, mas está apenas está escondida pela rotina.

Converse com pessoas diferentes de você

Existe um tipo de repertório que dificilmente encontramos nos livros: ele nasce das conversas. Sem o outro, nós aprendemos muito pouco sobre o mundo – e, muitas vezes, sobre nós mesmos. É no contato com pessoas diferentes que ampliamos nossa visão, questionamos certezas e descobrimos novas maneiras de interpretar a realidade.

Sempre gostei de ouvir histórias, talvez por influência do jornalismo. E eu amo conhecer pessoas, conversar, descobrir pontos de vista diferentes.

Tem um trecho de uma música do Raul Seixas que diz, “cada um de nós é um universo”. Não poderia concordar mais! Afinal, cada pessoa carrega consigo um universo inteiro, cheio de experiências, medos, memórias, sotaques, referências e formas completamente diferentes de enxergar a vida.

Conversar com alguém de outra geração, profissão ou contexto social costuma ensinar muito mais do que imaginamos – e não porque aquela pessoa necessariamente tenha todas as respostas, mas porque ela amplia as perguntas que somos capazes de fazer.

E não existe forma mais bonita de desenvolver repertório cultural do que permitir que outras perspectivas convivam com as nossas.

Produza, não apenas consuma

E, é claro, não precisamos apenas consumir cultura, mas também produzir.

Quando escrevo, fotografo ou simplesmente anoto uma observação em um caderno, sou obrigada a organizar ideias, estabelecer relações e refletir sobre aquilo que vivi. É nesse momento que muitas referências deixam de ser apenas informação e passam, de fato, a fazer sentido dentro de mim.

Foi justamente essa percepção que me levou a escrever um artigo sobre como desenvolver uma escrita criativa em tempos de Inteligência Artificial. Nele, conto que escrever deixou de ser apenas uma ferramenta de trabalho para se tornar uma maneira de preservar meu próprio olhar sobre o mundo.

Não é preciso publicar um livro, expor fotografias ou viver de arte para fazer isso: você pode escrever um diário, desenhar, pintar, tocar um instrumento, fotografar por hobby ou manter um caderno de observações.

Qualquer prática criativa transforma aquilo que consumimos em algo verdadeiramente nosso. E é justamente nesse movimento de criar que o repertório deixa de ser externo e passa a fazer parte da nossa identidade.

Repertório = curiosidade

Hoje, quando penso em alguém culto, dificilmente imagino uma pessoa com uma estante repleta de livros, uma fala rebuscada ou que frequenta os espaços mais sofisticados da cidade.

Penso muito mais em alguém curioso: alguém que está sempre disposto a aprender, fazer perguntas, experimentar coisas novas e ouvir com atenção aquilo que ainda não conhece; alguém capaz de conversar sobre temas diversos, mas que, acima de tudo, continua aberto a mudar de ideia, conhecer outras perspectivas e admitir que ainda há muito a descobrir.

É alguém que decide entrar em uma exposição gratuita mesmo sem conhecer o artista. Que assiste a um documentário sobre um assunto completamente diferente da sua área. Que gosta de ouvir alguém contar uma história que jamais viveria. Que caminha olhando para cima, observando fachadas antigas, ou carrega um caderninho para registrar uma ideia antes que ela desapareça.

Percebi, com o tempo, que o repertório não se constrói em grandes acontecimentos, mas na soma de pequenas experiências que vamos acumulando quase sem perceber. Aos poucos, ele passa a ocupar não apenas espaço na estante, mas também dentro da gente, crescendo discretamente, um detalhe de cada vez, sempre que escolhemos trocar a pressa pela curiosidade e permitir que o mundo nos surpreenda um pouco mais.

Dicas dadas, espero que, depois da leitura deste artigo, você perceba que desenvolver repertório cultural talvez seja muito mais simples do que parece: basta continuar fazendo perguntas, prestando atenção aos detalhes e permitindo que cada experiência deixe alguma marca em você.

Continue curioso. Leia, observe, converse, viaje quando puder, crie, experimente e permita-se mudar de ideia. Desenvolver repertório cultural é, acima de tudo, manter viva a disposição para aprender um pouquinho todos os dias.

No fim, são justamente essas pequenas experiências que, quase sem perceber, moldam a forma como enxergamos o mundo — e também a nós mesmos.

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