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Ikigai e criatividade: sua arte precisa virar trabalho?

Tem dias em que, mesmo trabalhando com aquilo que amo, me questiono se estou no caminho certo, como se eu me visse em uma busca incessante por encontrar um trabalho que dê conta de expressar tudo o que sou, em todas as camadas possíveis.

Para quem trabalha com criatividade, essa cobrança pode ser ainda maior, já que existe uma expectativa de que deveríamos conseguir transformar aquilo que nos move, nos interessa e nos faz criar em profissão.

É justamente nesse espaço, entre o que fazemos para viver e aquilo que nos faz sentir mais vivos, que ikigai e criatividade se encontram.

Eu me vejo, muitas vezes, presa nessa contradição: gosto de escrever, fotografar, criar, pesquisar, descobrir coisas novas.

Por muito tempo, achava que precisava descobrir qual dessas atividades era, afinal, “a minha grande paixão”, até entender que talvez eu não precise escolher uma única, mas possa exercer mais do que uma, cada qual em seu momento.

Quando falamos em propósito, porém, é comum imaginar que existe uma combinação perfeita entre paixão, talento, impacto e dinheiro, e que encontrá-la seria o caminho para uma vida plenamente satisfatória.

É mais ou menos essa promessa que parece existir no famoso diagrama do ikigai. No entanto, trago alguns questionamentos: será que uma atividade criativa precisa reunir tudo isso para ter valor?

E se algumas coisas que fazemos para ganhar dinheiro não puderem coexistir com outras que fazemos simplesmente porque gostamos, sem a necessidade de capitalizá-las?

Por isso, gostaria de trazer, ao longo desse artigo, uma visão sobre o ikigai menos como uma fórmula a ser resolvida e mais como uma ferramenta para pensar os diferentes lugares que a criatividade pode ocupar na nossa vida.

O que é ikigai, afinal?

Antes de falar dos círculos, vale uma pequena correção naquilo que provavelmente já vimos dezenas de vezes nas redes sociais: o diagrama que coloca lado a lado “o que você ama”, “o que você faz bem”, “o que o mundo precisa” e “pelo que você pode ser pago” não é uma representação tradicional japonesa do ikigai, mas uma adaptação ocidental relativamente recente, popularizada na internet como uma ferramenta para pensar carreira e propósito.

Um conceito amplo para ser analisado com cautela

De maneira bastante simplificada, podemos entendê-lo como aquilo que dá valor ou sentido à vida, uma razão para levantar pela manhã e continuar vivendo, não precisando necessariamente estar ligado à profissão, podendo aparecer também em relações, atividades, projetos e experiências cotidianas.

A psiquiatra japonesa Mieko Kamiya foi uma das principais responsáveis por sistematizar a discussão moderna sobre ikigai. Seu interesse pelo tema surgiu, em parte, a partir do trabalho com pessoas hospitalizadas e em condições extremamente adversas, mas que, ainda assim, encontravam razões para continuar, atribuindo valor à própria existência.

Foi observando essas experiências que Kamiya passou a investigar uma pergunta muito mais ampla do que “qual é o propósito da minha carreira?”, mas sim: “o que faz uma vida parecer digna de ser vivida?

Em seu livro Ikigai ni Tsuite, publicado em 1966, ela tratou o conceito como algo relacionado ao sentido da vida e não como uma fórmula profissional.

Kamiya inclusive diferenciava o ikigai enquanto fonte ou objeto de significado, aquilo ou alguém que dá sentido à vida, do ikigai-kan, a sensação subjetiva de que a própria vida vale a pena.

Para ela, a satisfação pode estar em uma atividade, uma relação, um projeto, um sonho ou em alguma experiência cotidiana, não precisando necessariamente ser um trabalho: as pequenas alegrias diárias, a conexão com o presente, nossa relação com as pessoas próximas e tudo aquilo que, em diferentes momentos da vida, pode nos dar uma razão para continuar.

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Então, se o ikigai diz respeito àquilo que torna a vida significativa, por que presumimos que uma única profissão deveria ser responsável por concentrar todas as nossas fontes de realização?

Ikigai e criatividade: qual a relação?

É justamente a partir desses questionamentos que podemos relacionar ikigai e criatividade – afinal, criar pode ser trabalho, mas também pode ser aquilo que fazemos fora dele.

É por isso que, mesmo com todas as ressalvas sobre a interpretação ocidental do diagrama, é legal olharmos para os quatro círculos como uma ferramenta de reflexão, não como uma fórmula que precisamos resolver.

O primeiro pergunta: o que eu amo?

Para uma pessoa criativa, talvez seja desenhar; para outra, fotografar; para outra, escrever, cozinhar, fazer música, pintar, fazer artesanato ou passar horas pesquisando referências.

Depois vem: o que eu faço bem?

E aqui existe uma distinção que nem sempre fazemos: aquilo que amamos não precisa ser aquilo em que somos melhores. Podemos criar justamente nas áreas em que ainda estamos aprendendo, já que a habilidade pode vir depois da curiosidade.

O terceiro círculo pergunta: o que o mundo precisa?

Na arte, talvez essa seja a pergunta mais difícil, porque uma obra não precisa necessariamente atender a uma necessidade para existir: ela pode provocar, questionar, emocionar ou simplesmente ser expressão de quem a criou.

Nem tudo o que fazemos precisa ter uma utilidade ou produzir algum efeito mensurável no outro para ter valor.

E então chegamos ao círculo mais concreto: pelo que me pagam?

Para quem vive de criatividade, essa pergunta é inevitável. Arte também é trabalho: envolve tempo, conhecimento, equipamentos, materiais e todos os custos que existem por trás do processo de criação.

E não, não há nada de errado em ganhar dinheiro com aquilo que amamos, desenvolver uma habilidade, querer contribuir com o mundo ou encontrar realização no que fazemos: o problema começa quando transformamos a sobreposição de todos esses círculos em uma espécie de obrigação, como se tudo precisasse acontecer ao mesmo tempo para que nossa criação tenha valor ou para que nossa vida faça sentido.

Será que precisamos capitalizar tudo que fazemos?

Existe uma contradição na maneira como falamos sobre trabalho hoje: de um lado, somos incentivados a procurar estabilidade; do outro, somos lembrados o tempo inteiro de que precisamos “fazer o que amamos”.

E, quando essas duas coisas coincidem, parece que encontramos a vida ideal. Mas e quando não coincidem? Ou quando coincidem apenas parcialmente?

Nossa auto cobrança tem ido além?

Gosto muito do pensamento de Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano conhecido por suas reflexões sobre as transformações do trabalho, da produtividade e das relações humanas na sociedade contemporânea.

Em Sociedade do Cansaço, ele descreve uma época em que já não precisamos de alguém nos obrigando a produzir o tempo inteiro: nós mesmos incorporamos essa cobrança e passamos a exigir cada vez mais de nossas próprias capacidades.

Ele chama isso de “sociedade do desempenho”, em que já não basta fazer, mas é preciso produzir, melhorar, performar, desenvolver habilidades e transformar aquilo que sabemos fazer em algum tipo de resultado mensurável.

E essa lógica também pode chegar à criatividade. Você gosta de desenhar? Venda suas ilustrações. Gosta de fotografar? Monte um portfólio e comece a fazer ensaios. Escreve? Publique um livro. Faz artesanato? Abra uma loja online. Tem uma habilidade? Monetize.

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É claro que transformar criatividade em trabalho pode ser uma escolha maravilhosa. Para muitas pessoas, é exatamente o que desejam e não há contradição alguma nisso. A questão é que “faça o que ama” pode ganhar uma segunda frase quase imperceptível que é “faça isso render.”

É aí que precisamos prestar atenção, porque nem toda atividade criativa precisa gerar dinheiro e nem todo trabalho precisa ser responsável por produzir realização existencial: podemos trabalhar com aquilo que amamos e, ainda assim, encontrar sentido em outras coisas, podemos ganhar dinheiro com uma habilidade criativa e preservar outras como espaços de experimentação, prazer ou simplesmente expressão.

A criatividade não precisa estar permanentemente produzindo para continuar sendo criatividade.

Quando a criatividade vira obrigação

Eu amo fotografia há anos. Estudei, investi em cursos e equipamentos, passei incontáveis horas praticando e cheguei a fazer ensaios fotográficos remunerados – até entender que não queria transformar essa paixão em profissão.

Em alguns momentos, me indaguei: se eu gosto tanto disso, por que não fazer da fotografia uma fonte de renda? A resposta veio quando percebi que queria preservar o ato de fotografar em um espaço onde pudesse criar sem precisar responder às demandas do mercado.

Isso não tornou minha relação com a fotografia menos séria. Apenas me fez entender que ela não precisava ocupar todos os círculos do ikigai para ter importância na minha vida.

A escrita me ensinou algo parecido, mas pelo caminho inverso. Quando escrevo simplesmente porque quero escrever, existe uma liberdade diferente daquela que experimento quando escrevo profissionalmente.

Não há prazo, público-alvo, revisão ou a necessidade de responder a objetivos mensuráveis. Existe apenas a vontade de colocar alguma coisa no papel e descobrir, no próprio processo, o que eu queria dizer, mesmo que não faça sentido para ninguém mais além de mim.

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Isso não significa que escrever profissionalmente seja ruim, mas sim que trabalhar com uma linguagem criativa muda a relação que temos com ela, já que, quando uma atividade criativa se transforma em trabalho, outras camadas passam a fazer parte dela – e reconhecer essa mudança me parece mais honesto do que fingir que continuamos criando exatamente da mesma maneira.

A questão, para mim, não é escolher entre criar por prazer ou criar profissionalmente, mas preservar a possibilidade de fazer algo simplesmente porque queremos fazê-lo, sem que toda criação precise encontrar uma finalidade fora dela mesma.

A arte pode habitar qualquer um dos quatro círculos

Dito tudo isso, o que eu quis trazer como reflexão, a partir desse artigo, é que, pensando em ikigai e criatividade, podemos enxergá-lo sob outra perspectiva, diferente do modelo ocidental, para além de uma fórmula em que os quatro círculos precisam ser seguidos à risca ou sobrepostos.

A arte pode estar naquilo que amamos, naquilo em que somos bons, no que oferecemos ao mundo e, sim, também naquilo pelo que somos pagos – mas não precisa ocupar todos esses lugares ao mesmo tempo.

Uma pessoa pode viver de design e encontrar sua principal fonte de prazer pintando nas horas vagas. Outra pode trabalhar como professora, escrever poemas à noite e nunca querer publicá-los. Alguém pode encontrar os quatro círculos em uma única atividade; outra pessoa pode ter diferentes atividades criativas que ocupam apenas alguns deles. Nenhuma dessas formas de viver é, por isso, mais ou menos criativa.

O problema é essa cobrança de que existe um único ponto central onde tudo precisa se encaixar.

E aí, quando pensamos dessa forma, passamos a colocar no trabalho uma carga gigantesca, como se fosse a única forma possível de realização, renda, identidade, propósito, prazer, reconhecimento e felicidade ao mesmo tempo.

O trabalho pode pagar as contas; a arte pode alimentar a curiosidade; a fotografia pode devolver o olhar; a escrita pode organizar aquilo que ainda não sabemos nomear – mas é exigir demais de uma profissão e também de nós mesmos que nossa vida profissional dê conta de dar sentido a uma vida inteira.

Por isso, que tal olharmos para o ikigai não como uma fórmula a ser seguida, mas como um convite a perceber onde diferentes formas de sentido já acontecem em nossa vida? Os círculos podem se encontrar, mas também podem permanecer separados. E está tudo bem!

Então, para concluir, a reflexão que quero deixar vai além de qual é o trabalho que vai te fazer feliz, mas sim: o que, além do seu trabalho, dá sentido à vida que você está construindo e o que te faz feliz quando você não está pensando em dinheiro, produtividade ou performance?

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