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Como desenvolver uma escrita criativa em tempos de Inteligência Artificial


Lembro-me da primeira vez que abri o Chat GPT, curiosa mas relutante. “Que negócio é esse que pode substituir os jornalistas e escritores um dia?”, pensei inquietamente. Confesso que por muito tempo torci o nariz, mas pouco a pouco fui experimentando prompts e percebendo que, se usadas com parcimônia, essas ferramentas podem ser úteis no dia a dia. Só que com isso veio o questionamento: como manter uma escrita criativa em tempos de Inteligência Artificial, sem deixar que a tecnologia roube minha autenticidade?

Como jornalista, escrever é parte da minha rotina. Muitas vezes, tenho um grande volume de textos para desenvolver, o que demanda tempo e criatividade. Mas a gente bem sabe como é o dia a dia profissional: é preciso ser ágil. Cheguei a testar as IAs para facilitar o processo, mas os textos entregues nunca vinham bons, sendo necessário lapidá-los quase inteiramente.

Além disso, meu trabalho vai muito além de simplesmente escrever: envolve apuração, análise, percepção de nuances e verificação de contextos. É um processo que exige pensamento crítico e, acima de tudo, estratégia. Por mais que seja possível delegar parte da elaboração de um texto a uma IA a partir de um prompt, ela jamais substitui o núcleo criativo e investigativo que antecede a redação. Por isso, essas ferramentas devem ser usadas apenas como apoio, preservando aquilo que torna cada texto único – nossa própria voz.

Somado a isso, também refleti que, para exercitar minha criatividade, precisava ir além dos textos jornalísticos, que seguem um padrão específico de estrutura e estilo, mais objetivo e “roteirizado”. A solução foi buscar alternativas escrevendo novos formatos e me arriscando na prática com o único intuito de me expressar, sem pressão por perfeição.

Nesse artigo, vou abordar exatamente o que eu fiz para desenvolver uma escrita mais criativa e espontânea. São dicas simples, mas que certamente também irão te ajudar. Vamos lá?!

Passo a passo para manter a escrita criativa em tempos de Inteligência Artificial

Como disse acima, o intuito dos próximos tópicos é trazer o passo a passo que segui para manter a prática da escrita viva, mesmo em meio à tecnologia. Essas estratégias podem ser aplicadas no dia a dia para fortalecer sua voz e expandir sua criatividade.

Mantenha sua autenticidade

Para começar, a dica que considero mais importante é a de manter sua autenticidade viva. Eu acredito que escrever é uma expressão artística – e a arte nasce justamente das nuances subjetivas internas, de cada uma daquelas camadas que são inteiramente nossas e que nos conferem um jeito único de sentir, pensar e nos expressar. 

Dito isso, é preciso expressar sua singularidade. Um texto meu não deveria soar igual a um texto seu (ainda bem!), e é justamente essa voz humana que a IA ainda não consegue reproduzir, por seguir um padrão específico e engessado de linguagem.

Se eu colocar esse texto aqui no Chat GPT, ele vai cortar um monte de coisas e sugerir um tantão de outras mudanças. O artigo vai ficar coeso e gramaticalmente correto, mas vai faltar a alma que existe somente nos amontoados de palavras pensadas por cérebros de carne e osso. 

Falo sério: eu reconheço na hora um texto 100% feito por IA, sem lapidação humana! Eles costumam ser padronizados, com frases curtas e bem organizadas, objetividade excessiva, vocabulário neutro e conteúdo previsível. Não há desvios ou digressões que nós utilizamos para criar estilo ou cadência própria, tampouco associações livres, reflexões subjetivas e metáforas.

E se tem uma coisa que aprendi foi a não pedir revisões que alterem meu texto, seja resumindo, compactando, mudando o tom de voz ou apagando minhas expressões. Uso para sugestões de sinônimos e de melhorias na fluidez, ajustes de pontuação e possíveis erros gramaticais, bem como indicações de trechos onde podem existir repetições de ideias e/ou pequenos ajustes que não comprometam minha voz.

Mas, alterar o que foi escrito?! Não, não e não! Meus textos tendem a ser densos, às vezes até excessivos – e está tudo bem, porque a minha autenticidade está nesse excesso, não na objetividade. E você, caro leitor, deve fazer o mesmo e assumir o seu estilo de escrita!

Escreva sem filtros

Outra prática essencial nesse processo de exercitar a escrita criativa foi começar a escrever livremente, sem filtros e sem me preocupar em seguir estruturas específicas – como é o caso de textos jornalísticos.

Quando a vontade de escrever surgia, simplesmente deixava as palavras transbordarem. Pouco a pouco, esse processo foi ficando mais intenso e, em alguns momentos, sentia uma espécie de “transe criativo“, em que a escrita emergia de dentro, sem pedir permissão. Nessas horas, é como se suas mãos se movessem sozinhas, rabiscando pensamentos sem pedir permissão.

Ordem, regras, perfeição? Tanto faz se faz sentido: apenas escreva sem o medo de errar. Eu compartilho essa dica porque foi nesse fluxo livre que comecei a colocar ideias no papel ou no bloco de notas que, depois de lapidadas, viraram alguns dos meus textos favoritos e mais criativos.

É nesse momento que percebo a diferença entre humanos e máquinas. Nossos textos nascem do caos, das epifanias, dos erros e dos acasos, de tudo aquilo que habita nossas subjetividades: inquietações, silêncios e palavras não ditas, anseios, alegrias efêmeras, nostalgias, indignações… Na escrita esses sentimentos se transformam em metáforas, contradições, repetições ou ritmos quebrados – como se a linguagem respirasse conosco.

Escreva à mão e ande sempre com um caderninho

Hoje em dia, em um mundo digitalizado, escrever à mão se tornou algo quase obsoleto. Mas essa prática traz uma série de benefícios não apenas para manter ativa a sua escrita criativa em tempos de Inteligência Artificial, mas também para organizar pensamentos, aprimorar a resolução de problemas e fortalecer sua memória e aprendizado.

Quando me propus a exercitar a escrita, já logo me apressei em comprar uma série de caderninhos, que passei a carregar sempre comigo. Percebi, então, que o ritmo das canetas é outro: mais lento e mais íntimo, como se você pudesse ter um tempo “fora do mundo” apenas para você e seus dizeres.

No papel, sinto que penso diferente – e isso mudou minha relação com as palavras, mesmo que doa a mão em alguns momentos. E sabe aquele fluxo livre que citei no tópico anterior? Foi exercitado justamente em folhas de papel, contribuindo para o nascimento de alguns dos meus textos favoritos.

Por isso, se eu puder dar uma dica é a de sempre carregar um caderninho com você e anotar tudo que vem na cabeça: seja uma reflexão, uma observação de algo que chamou sua atenção, uma frase solta, um diálogo ouvido no ônibus ou até mesmo uma epifania que pode surgir do nada.

Já fiz isso muito, chegando a anotar ideias até mesmo dentro do ônibus, na mesa do bar com amigos e no terraço de um centro cultural durante uma apresentação musical. Essa prática me ajuda a registrar fragmentos do cotidiano e ideias que depois alimentam meus textos e a exercitar o olhar criativo.

Escreva diferentes gêneros textuais

Outro ponto que considero essencial é se permitir arriscar em diferentes gêneros textuais, pois escrever sempre o mesmo estilo pode minar a criatividade a longo prazo.

Para ser criativo, é preciso ser flexível. Eu, por exemplo, tenho me arriscado em novos formatos: crônicas, contos, poemas, prosas poéticas, dentre outros. Até comecei a rascunhar uma narrativa com três camadas de escrita: o narrador em terceira pessoa, com voz mais observadora e descritiva; os textos, poemas e reflexões que a personagem redige dentro da própria história; e o fluxo de pensamentos, onde a escrita sai imediatamente da mente da personagem, sem filtro ou censura, quase como se estivéssemos dentro da sua cabeça, acompanhando cada divagação e associação de ideias em tempo real.

Essa alternância me obriga a sair do piloto automático, experimentando ritmos, vocabulários e estruturas distintas. Cada gênero me mostra um jeito diferente de pensar o mundo e, ao transitar entre eles, a escrita se mantém viva.

Uma IA pode simular gêneros literários, mas tende a repetir estruturas previsíveis. A escrita humana é ilimitada justamente porque nasce do imprevisível. Podemos ousar, misturar, inventar algo que ainda não existe – e é nesse território que a criatividade floresce!

Leia muito e diferentes gêneros

Não poderia deixar de citar a importância da leitura para exercitar a sua escrita criativa. Leia, mas não apenas o que for do seu interesse: saia da zona de conforto e descubra novos autores e gêneros literários.

A literatura abre inúmeras possibilidades de linguagem. Por isso, quando mergulho em autores diferentes, sinto minha cabeça se expandir e meu estilo de escrita ganhar novas camadas. Cada escritor tem uma cadência própria, uma marca que lhe é única. Então, quanto mais lemos, mais nuances encontramos que podem enriquecer a nossa própria voz. Por isso, se você escreve crônicas, leia ficção científica. Se prefere romances, arrisque um livro de fantasia. A mistura é combustível para a criatividade!

Inclusive, vou indicar aqui uma plataforma para você diversificar sua leitura: o Substack. Lá você encontra newsletters de diversos autores, amadores ou não, que publicam os mais diferentes temas, estilos e formatos. Além disso, você pode publicar seus próprios textos e receber feedback dos outros usuários, já que dentro da plataforma existe o Notes, que funciona quase como um Twitter e permite que as pessoas interajam, compartilhem ideias e conteúdos de forma dinâmica.

Mantenha uma rotina de escrita

Para manter a escrita criativa em tempos de Inteligência Artificial, nada substitui a prática constante. Não espere a inspiração chegar para escrever, faça mesmo assim – mesmo que o texto não fique completo ou perfeito. O importante é manter o hábito vivo, sejam apenas alguns minutos por dia ou em alguns dias específicos da semana.

Na minha experiência, criar uma rotina ajuda a manter o pensamento fluindo e as ideias em movimento. Você pode praticar de noite antes de dormir ou de manhã enquanto toma café e rabisca ideias, por exemplo. Aqui, entra a dica que dei mais acima, de sempre andar com um caderninho, mas até mesmo o bloco de notas do celular é bem-vindo para esses momentos!

Além disso, a consistência permite que você perceba mudanças sutis no seu estilo, descubra novas vozes e experimente ritmos diferentes. Pequenos hábitos diários se transformam em textos mais densos, criativos e autênticos ao longo do tempo.

Alguns exercícios para você treinar sua escrita criativa

Não poderia concluir este texto sem compartilhar alguns exercícios práticos. Eles são simples, mas ajudam a treinar a criatividade sem pressão por perfeição:

  • Fluxo livre: escolha um tema ou simplesmente deixe as palavras saírem, sem filtros, por 10 minutos. Não se preocupe com gramática, coesão ou sentido, já que o objetivo é colocar a mente para trabalhar e registrar ideias que podem virar textos depois;
  • Momentos da vida em diferentes formatos: pense em um episódio específico da sua vida e tente reescrevê-lo como crônica, narrativa em terceira pessoa ou até poema. Isso ajuda a experimentar diferentes estilos e perspectivas;
  • Crie personagens e assuma a voz deles: invente alguém totalmente diferente de você e escreva um texto em primeira pessoa como se fosse essa pessoa. A prática expande sua capacidade de empatia e estilo narrativo;
  • Show, don’t tell (Mostre, não diga): Ao invés de apenas contar algo, crie cenas que demonstrem emoções ou relações. Por exemplo, não escreva “Lucas estava nervoso”, mas mostre que “Lucas batia os dedos na mesa, desviava o olhar, respirava rápido e mordia o lábio inferior.” Ao descrever dessa forma, o leitor sente o que acontece, em vez de apenas ser informado;
  • Diálogos vivos: ao escrever conversas, mostre exatamente o que os personagens falam e como interagem, em vez de resumir ou explicar. Isso cria ritmo e aproxima o leitor da narrativa;
  • Observação do cotidiano: anote cenas do dia a dia, como alguém no ônibus, uma conversa de bar, um gesto inusitado… depois, transforme essas observações em diferentes gêneros, como por exemplo poema, narrativa ou crônica.

Esses exercícios são um convite à experimentação: você pode errar, exagerar, quebrar padrões e descobrir caminhos inesperados. A ideia é manter viva sua voz, explorar diferentes perspectivas e expandir sua imaginação.

Concluindo: escreva, experimente, sinta o processo

Em tempos de Inteligência Artificial, escrever continua sendo um ato profundamente humano. A tecnologia pode ajudar a organizar ideias ou acelerar processos, mas jamais substituirá a subjetividade e a riqueza de todas as experiências internas que são unicamente nossas e dão vida aos textos.

Manter a autenticidade, escrever sem filtros, explorar diferentes gêneros, ler autores variados e criar uma rotina de escrita são alguns dos passos que nos conectam com nossa essência criativa. Cada caderno rabiscado, cada narrativa inventada ou fluxo de pensamento registrado é um convite para que sua voz se revele em toda a sua singularidade.

Permita-se experimentar, inventar, acertar e errar – é nesse espaço imprevisível que a escrita floresce, se reinventa e mantém viva a arte que habita as entrelinhas de cada amontoado de palavras.

Eu costumo dizer que escrever, atualmente, é um ato de resistência. Mas resistimos, porque cada palavra que transborda de dentro é um registro da nossa presença no mundo, da nossa maneira única de sentir, de experimentar a vida, de ser… ser humano, na sua forma mais crua, viva, intensa e autêntica.

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